terça-feira, 7 de julho de 2009

Presença


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exacto e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
subtilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


Mario Quintana

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Música


O que mais me comove em música
São estas notas soltas
- pobres notas soltas-
...
Mario Quintana

domingo, 5 de julho de 2009

Projecto de prefácio


Sábias agudezas...refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando páras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
Mario Quintana

sábado, 4 de julho de 2009

Os arroios

Os arroios são rios guris...
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d'água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...


Mario Quintana; Baú dos Espantos, Porto Alegre, Globo, 1986

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Força do Hábito


Um dia o meu cavalo voltará sozinho e assumindo sem querer a minha própria imagem e semelhança, virá ler, naquele café de sempre, nosso jornal de cada dia...
Mario Quintana; Apontamentos de História Sobrenatural, 1976

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Das Utopias


Se as coisas são inatingíveis...ora!
Não é motivo para não quere-las...
Que triste os caminhos,
Se não fora
A presença distante das estrelas!


Mario Quintana; Espelho Mágico. Porto Alegre: Globo, 1951.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Isso...


As crianças, os poetas e talvez esses incompreendidos, os loucos, têm uma memória atávica das coisas. Por isso julgam alguns que o seu mundo não é propriamente este. Ah, nem queiras saber... Eles estão neste mundo há muito mais tempo do que nós.


Mario Quintana